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Allan Kardec - Vida e Obra






Duas são as fases em que se pode dividir a vida de Allan Kardec: a primeira, como consagrado professor Rivail; a segunda, como o Codificador do Espiritismo. Destacaremos, a seguir, os aspectos mais importantes de sua trajetória pela Terra.

1 – O menino Hippolyte

1.1  – Nascimento

Allan Kardec, cujo verdadeiro nome é Hyppolyte Léon Denizar Rivail, nasceu na cidade de Lion (França), dia 3 de outubro de 1804, no seio de antiga família lionesa, de nobres e dignas tradições.
Foram seus pais Jean-Baptiste Antoine Rivail, magistrado íntegro, e Jeanne Louise Duhamel. O Futuro codificador do Espiritismo recebeu um nome querido e respeitado e todo um passado de virtudes, de honra e probidade. Grande número de seus antepassados se tinham distinguido na advocacia, na magistratura e até mesmo no trato dos problemas educacionais. Bem cedo, o menino se revelou altamente inteligente e agudo observador, denotando franca inclinação para as ciências e para os assuntos filosóficos, compenetrado em seus deveres e responsabilidades, como se fora um adulto.

1.2  – Primeiros Estudos : O Instituto de Yverdon

Conforme nos conta Henri Sausse (Biógrafo de Kardec), Rivail realizou seus primeiros estudos em Lion, sua cidade natal, sendo educado dentro dos severos princípios de honradez e retidão moral. É de se presumir que a influencia paterna e materna tenham sido das mais benéficas na sua infância, constituindo-se em fonte de nobres sentimentos. Com idade de dez anos, seus pais o enviam a Yverdon, cidade suíça do cantão de Vaud, a fim de completar e enriquecer sua bagagem no célebre Instituto de Educação ali instalado em 1805, pelo professor filantropo João Henrique Pestalozzi. Frequentado todos os anos por grande número de estrangeiros, citado, descrito, imitado, era, numa palavra, a escola modelo da Europa.
Altas personalidade políticas, cientificas, literárias, filantrópicas voltavam maravilhadas de suas visitas ao famoso instituto. Louvaram o criador dessa obra revolucionaria, e por ela também se interessaram Goethe; o rei da Prússia, Frederico Guilherme III, e sua esposa Luísa; o Czar da Rússia, Alexandre I; o rei Carlos IV da Espanha; os reis da Baviera  e de Wurtemberg; o imperador da Áustria; a futura imperatriz do Brasil, D. Leopoldina de Áustria, e muitos expoentes da nobreza europeia e do mundo cultural.
O menino Denizar Rivail, ao qual os destinos reservariam sublime missão, logo se revelou um dos discípulos mais fervorosos do insigne pedagogista suíço. Possuidor de inteligência penetrante e alto espírito de observação, e, ainda mais, inclinado naturalmente para a solução dos importantes problemas do ensino e para o estudo das ciências e da filosofia, - Rivail cativou a simpatia e a admiração do velho professor, deste se tornando, pouco depois, eficiente colaborador. Os exemplos de amor ao próximo fornecidos por Pestalozzi (pra quem o amor é o eterno fundamento da educação) noteariam para sempre a vida do futuro Codificador do Espiritismo. Aliás, até mesmo aquele bom-senso, que Flammarion com felicidade aplicou a Rivail, foi cultivado e avigorado com as lições e exemplos recebidos no Instituto de Yverdon, onde também lhe desabrocharam as ideias que mais tarde o colocariam na classe dos homens progressistas e dos livres-pensadores.

2          – O Professor Rivail

2.1  – As obras didáticas

Sem dúvida, chegando à capital francesa, Denizard Rivail logo se pôs a exercer o magistério, aproveitando as horas vagas para traduzir obras inglesas e alemãs, e para preparar seu primeiro livro didático. Assim é que em dezembro de 1823, lançou o “Curso Prático e Teórico de Aritmética”, segundo o método de Pestalozzi. O “Cours d’Arithmétique” (Curso de Aritmética) constitui a primeira obra de cunho pedagógico e a primeira entre todas as demais dadas a publico por Rivail. O Futuro codificador do Espiritismo, com apenas dezoito anos de idade, empregava esforços e talento na preparação do utilíssimo livro, assentando-o em bases pestalozzianas, mas com muitas ideias originais e práticas do próprio autor. A obra em questão era recomendada aos instrutores e às mães de família que desejassem dar aos seus filhos as primeiras noções de aritmética, e primava pela simplicidade e clareza, qualidades estas que são, aliás,  principal mérito de todas as publicações de Rivail-Kardec. O Método por ele empregado desenvolve gradualmente as faculdades intelectuais do aluno. Este não se limitava a reter as formulas pela memória: penetra-lhes a essência, por assim dizer.
Além dessa obra, Rivail publicou numerosos livros didáticos, bem como planos e projetos dirigidos à reforma do ensino Francês, numa verdadeira fertilidade pedagógica, no dizer de Wantuil e Thiesen.

2.2  -  O Ensino Intuitivo

Como não podia deixar de ser, Rivail utilizou-se do ensino intuitivo, processo didático preconizado por Pestalozzi e, segundo o qual, se transmite ao educando a realização, a atualização da ideia, recorrendo-se aos exercícios de intuição sensível (educação dos sentidos), com passagem natural a atividades mentais que preludiam a intuição intelectual. A ideia existe originariamente na criança, e a intuição sensível é somente sua realização concreta, único meio de a ideia se tornar compreensível porque se encontra com força modeladora que vive e atua na criança. O ensino intuitivo se funda na substituição do verbalismo e do ensino livresco pela observação, pelas experiências, pelas representações gráficas, etc., operando sobre todas as faculdades da criança. A base da instrução elementar de Pestalozzi – afirmou Julien de Paris – é a INTUIÇÃO, que ele considera como o fundamento geral de nossos conhecimentos e o meio mais adequado para desenvolver as forçass do espírito humano, da maneira mais natural.

2.3  – O exercício das funções diretivas e educativas

Tendo fundado em 1826, em Paris, a Instituição Rivail, o jovem professor aí exerceu funções diretivas e educativas, desenvolvendo notável trabalho de aprimoramento da inteligência de centenas de educandos, aos quais ele carinhosamente chamava meus amigos. Deves-se ressaltar que tanto na Instituição, como em muitos outros de seus empreendimentos, Rivail pôde contar com o apoio e a dedicação da Professora Amélie-Gabrielle Boudet, com quem se casara em 1832.
Foi no decorrer de sua carreira de instrutor-filantropo que Rivail exercitou a paciência, abnegação, o trabalho, a observação, a força de vontade e o amor às boas causas, a fim de melhor poder desempenhar a gloriosa missão que lhe estava reservada. Assim, antes mesmo que o Espiritismo lhe popularizasse e imortalizasse o pseudônimo Allan Kardec, já havia Rivail firmado bem alto, no conceito do povo francês e no respeito de autoridades e professores, a sua reputação de digníssimo mestre da Pedagogia moderna, com seu nome inscrito em importantes obras bibliográficas.

3          – A missão

3.1  – Os primeiros contatos com os fenômenos mediúnicos

Em meados do século XIX as mesas girantes revolucionaram a Europa, sobretudo a França, chamando a atenção de toda a sociedade, inclusive da imprensa. O professor Rivail, estudioso do magnetismo, assim se expressa, a respeito dos novos fatos:
“Foi em 1854 que ouvi falar, pela primeira vez, das mesas girantes. Um dia, encontrei o Sr. Fortier, o magnetizador, que conhecia há muito tempo; ele me disse: Sabeis a singular propriedade que se acaba de descobrir no magnetismo? Parece que não são somente os indivíduos que se magnetizam, mas as mesas que se fazem girar e caminhar à vontade. - É muito singular, com efeito, respondi; mas, a rigor, isso não me parece radicalmente impossível. O fluido magnético, que é uma espécie de eletricidade, pode muito bem agir sobre os corpos inertes e fazê-los mover.Os relatos, que os jornais publicaram, de experiências feitas em Nantes e Marselha, e em algumas outras cidades, não podiam deixar dúvida sobre a realidade do fenômeno. Algum tempo depois revi o Sr. Fortier, e ele me disse: "Eis que é muito mais extraordinário; não só se faz a mesa girar magnetizando-a, mas a faz falar; interrogada ela responde.
Isto, repliquei, é uma outra questão; crerei nisso quando o vir, e quando se me tiver provado que uma mesa tem um cérebro para pensar, nervos para sentir, e que possa se tornar sonâmbula; até lá, permiti-me nisso não ver senão uma história de fazer dormir. Este raciocínio era lógico; eu concebia a possibilidade do movimento por uma força mecânica, mas, ignorando a causa e a lei do fenômeno, parecia-me absurdo atribuir inteligência a uma coisa puramente material. Estava na posição dos incrédulos de nossos dias que negam porque não vêem senão um fato do qual não se dão conta.”
            “Disso estava, pois, no período de um fato inexplicado, em aparência contrário às leis da Natureza, e que a minha razão repelia. Ainda nada tinha visto, nem nada observado; as experiências, feitas na presença de pessoas honradas e dignas de fé, me confirmaram na possibilidade do efeito puramente material, mas a idéia de uma mesa falante não entrava ainda no meu cérebro.”
            “No ano seguinte, era no começo de 1855, encontrei o Sr. Carlotti, um amigo de vinte e cinco anos, que me entreteve com esses fenômenos durante quase uma hora, com o entusiasmo que punha em todas as idéias novas. O Sr. Carlotti era Corso, de uma natureza ardente e enérgica; sempre estimara nele as qualidades que distinguem uma grande e bela alma, mas desconfiava de sua exaltação. Foi primeiro que me falou da intervenção dos Espíritos, e me contou tantas coisas surpreendentes que, longe de me convencer, aumentou as minhas dúvidas. Sereis um dia dos nossos, disse-me. Não digo não, respondi-lhe; veremos isso mais tarde.
Algum tempo depois, pelo mês de maio de 1855, me encontrei na casa da sonâmbula, Sra. Roger, com o Sr. Fortier, seu magnetizador; encontrei o Sr. Pâtier e a Sra. De Plainemaison que me falaram desses fenômenos no mesmo sentido do Sr. Carlotti, mas num outro tom. O Sr. Pâtier era um funcionário público, de uma certa idade, homem muito instruído, de um caráter sério, frio e calmo; sua linguagem firme, isenta de todo entusiasmo, fez sobre mim uma viva impressão, e, quando me ofereceu para assistir às experiências, que ocorriam na casa da Sra. de Plainemaison,  rua Grange-Batelière, nº 18, aceitei prontamente.
“Foi lá, pela primeira vez, que fui testemunha do fenômeno das mesas girantes, e isso em condições tais que não me era mais possível a dúvida. Vi também algumas tentativas, muito imperfeitas, de escrita medianímica, sobre uma ardósia, com a ajuda de uma cesta. As minhas idéias estavam longe de ser detidas, mas havia ali um fato que deveria ter uma causa. Entrevi, sob essas futilidades aparentes e a espécie de jogo que se fazia desses fenômenos, alguma coisa de séria, e como a revelação de uma nova lei, que me prometia aprofundar.
Logo se ofereceu a ocasião de observar mais atentamente do que não o havia feito ainda. Num dos saraus da Sra. De Plainemaison, conheci a família Baudin, que morava então na rua Rochechouart. O Sr. Baudin ofereceu-me para assistir às sessões semanais que ocorriam em sua casa, e para as quais fui, desde esse momento, muito assíduo.
Essas reuniões eram bastante numerosas; além dos habituais, ali se admitia, sem dificuldade, a quem pedisse. As duas médiuns eram as Srtas. Baudin, que escreviam sobre uma ardósia com a ajuda de uma cesta, dita pião, descrita em O Livro dos Médiuns. Esse modo, que exige o concurso de duas pessoas, excluía toda possibilidade de participação das ideias do médium. Ali, vi comunicações seguidas, e respostas dadas às perguntas propostas, algumas vezes mesmo a perguntas mentais que acusavam, de maneira evidente, a intervenção de uma inteligência estranha.”

3.2  – Os primeiros estudos sérios de espiritismo

“Foi lá que fiz os meus primeiros estudos sérios em Espiritismo, menos ainda pela revelação do que pela observação. Apliquei a essa nova ciência, como o fizera até então, o método da experimentação; jamais ocasionei teorias preconcebidas: observava atentamente, comparava, deduzia as consequências; dos efeitos procurava remontar às causas, pela dedução e o encadeamento lógico dos fatos, não admitindo uma explicação como válida senão quando podia resolver todas as dificuldades da questão. Foi assim que sempre procedi em meus trabalhos anteriores, desde a idade de 15 a 16 anos. Compreendi, desde logo, a seriedade da exploração que iria empreender; entrevi, nesses fenômenos, a chave do problema, tão obscuro e tão controverso, do passado e do futuro da Humanidade, a solução do que havia procurado em toda a minha vida; era, em uma palavra, toda uma revelação nas idéias e nas crenças; seria preciso, pois,
agir com circunspeção, e não levianamente; ser positivo e não idealista, para não se deixar iludir.
Um dos primeiros resultados de minhas observações foi que os Espíritos, não sendo outros senão as almas dos homens, não tinham a soberana sabedoria, nem a soberana ciência; que o seu saber estava limitado ao grau de seu adiantamento, e que a sua opinião não tinha senão o valor de uma opinião pessoal. Essa verdade, reconhecida desde o princípio, me preservou do grande escolho de crer em sua infalibilidade, e me impediu de formular teorias prematuras sobre o dizer de um só ou de alguns.
Só o fato da comunicação com os Espíritos, seja o que for que se possa dizer, provava a existência do mundo invisível ambiente; era já um ponto capital, um campo imenso aberto à nossa exploração, a chave de uma multidão de fenômenos inexplicados; o segundo ponto, não menos importante, era o de conhecer o estado desse mundo, seus costumes, podendo-se assim se exprimir; vi logo que, cada Espírito, em razão de sua posição pessoal e de seus conhecimentos, dele me desvendava uma fase, absolutamente como se chega a conhecer o estado de um país interrogando os habitantes de todas as classes e de todas as condições, cada um podendo nos ensinar alguma coisa, e nenhum, individualmente, não podendo nos ensinar tudo; cabe ao observador formar o conjunto com a ajuda de documentos recolhidos de diferentes lados, colecionados, coordenados e controlados uns pelos outros. Agi, pois, com os Espíritos, como o teria feito com os homens; foram para mim, desde o menor ao maior, meios de me informar, e não reveladores predestinados.”

3.3  – Noticias e desempenho na missão

Em 12 de junho de 1856, pela mediunidade da senhorita Aline C..., o professor Rivail dirige-se ao Espírito Verdade com a intenção de obter mais informações acerca da missão que alguns espíritos já lhe haviam apontado: missionário-chefe da nova doutrina. Estabeleceu-se, então, o diálogo que segue:
Pergunta (À Verdade) – “Bom Espírito, desejaria saber o que pensais da missão que me foi assinada apor alguns Espíritos; quereis dizer-me, eu vos peço, se é uma prova para o meu amor-próprio. Sem dúvida, vós o sabeis, tenho o maior desejo de contribuir para a propagação da verdade, mas, do papel de simples trabalhador ao de missionário como chefe, a distância é grande, e eu não compreenderia o que poderia justificar, em mim, um tal favor, de preferência a tantos outros que possuem talentos e qualidades que não tenho.”
Resposta – “Confirmo o que te foi dito, mas convido-te a muita discrição, se quiseres vencer. Saberás, mais tarde, coisas que te explicarão o que te surpreende hoje. Não olvideis que podeis vencer, como podeis falir; neste último caso, um outro te substituiria, porque os desígnios do Senhor não repousam sobre a cabeça de um homem. Não fales, pois, jamais da tua missão: esse seria o meio de fazê-la fracassar. Ela não pode ser justificada senão pela obra realizada, e ainda nada fizeste. Se a cumprires, os homens te reconhecerão, cedo ou tarde, eles mesmos, porque é pelos frutos que se reconhece a qualidade da árvore.”
Pergunta – “Certamente, não tenho nenhuma vontade de me gabar de uma missão na qual creio apenas eu mesmo. Se estou destinado a servir de instrumento para os objetivos da Providência, que ela disponha de mim; mas, nesse caso, reclamo a vossa assistência e a dos bons Espíritos para me ajudarem e me sustentarem na tarefa.”
Resposta – “A nossa assistência não te faltará, mas será inútil se, de tua parte, não fizeres o que é necessário. Tens o teu livre arbítrio; cabe a ti usá-lo como entendes; nenhum homem está constrangido a fazer fatalmente uma coisa. “

Pergunta – “Quais são as causas que poderiam me fazer fracassar? Seria a insuficiência de minhas capacidades?”
Resposta – “Não; mas a missão dos reformadores está cheia de escolhos e de perigos; a tua é rude, disso te previno, porque é o mundo inteiro que se trata de agitar e de transformar. Não creias que te baste publicar um livro, dois livros, dez livros, e permaneceres tranquilamente em tua casa; não, ser-te-á preciso expor-te ao perigo; levantarás contra ti ódios terríveis; inimigos obstinados conjurarão a tua perda; estarás em luta contra a malevolência, a calúnia, a traição mesmo daqueles que te parecerão os mais devotados; tuas melhores instruções serão desconhecidas e desnaturadas; mais de uma vez, sucumbirás sob o peso da fadiga; em uma palavra, será uma luta quase constante que terás que sustentar, e o sacrifício de teu repouso, de tua tranqüilidade, de tua saúde,e mesmo de tua vida, porque sem isso viverias por muito mais tempo. Pois bem! mais de um recua quando, em lugar de um caminho florido, não encontra sob os seus passos senão espinheiros, pedras agudas e serpentes. Para tal missão, a inteligência não basta. É necessário primeiro, para agradar a Deus, a humildade, a modéstia, o desinteresse, porque ele abate os orgulhosos, os presunçosos e os ambiciosos. Para lutar contra os homens é necessário coragem, perseverança, e uma firmeza inabalável; é preciso também da prudência e do tato, para conduzir as coisas a propósito, e não comprometer-lhe o sucesso por medidas, ou por palavras, intempestivas; é preciso, enfim, do devotamento, da abnegação, e estar pronto para todos os sacrifícios. Vês que a tua missão está subordinada a coisas que dependem de ti.”
Após o diálogo com o Espírito Verdade, estando mais lúcido sobre o que lhe competiria fazer daí para adiante, Rivail elevou a Deus uma prece, revelando humildade e total submissão aos desígnios superiores.
“Senhor! Se vos dignastes lançar os olhos sobre mim para o cumprimento de vossos desígnios, que seja feita a vossa vontade! A minha vida está em vossas mãos, disponde do vosso servidor. Em presença de uma tão grande tarefa, reconheço a minha fraqueza; minha boa vontade não faltará, mas, talvez, as minhas forças me trairão. Supri a minha insuficiência; dai-me as forças físicas e morais que me forem necessárias. Sustentai-me nos momentos difíceis, e com a vossa ajuda, e a de vossos celestes mensageiros, esforçar-me-ei para corresponder aos vossos objetivos.”
No que diz respeito ao teor do diálogo travado com o Espírito Verdade, Kardec registra, dez anos depois, as seguintes observações:
“Escrevo esta nota em 1º de janeiro de 1867, dez anos e meio depois que esta comunicação me foi dada, e constato que ela se realizou em todos os pontos, porque sofri todas as vicissitudes que me foram anunciadas.Fui alvo do ódio de inimigos obstinados, da injúria, da calúnia, da inveja e do ciúme; libelos infames foram publicados contra mim; as minhas melhores instruções foram desnaturadas; fui traído por aqueles em quem coloquei a minha confiança, pago com a ingratidão por aqueles a quem prestei serviço. A Sociedade de Paris foi um foco contínuo de intrigas urdidas por aqueles mesmos que se diziam por mim, e que, fazendo cara boa diante de mim, me dilaceravam por detrás. Disseram que aqueles que tomavam o meu partido eram assalariados por mim com o dinheiro que eu recolhia do Espiritismo. Não mais conheci o repouso; mais de uma vez sucumbi sob o excesso de trabalho, a minha saúde foi alterada e a minha vida comprometida.
No entanto, graças à proteção e à assistência dos bons Espíritos que me deram, sem cessar, provas manifestas de sua solicitude, estou feliz em reconhecer que não senti, um só instante, o desfalecimento nem o desencorajamento, e que constantemente persegui a minha tarefa com o mesmo ardor, sem me preocupar com a malevolência de que era objeto. Segundo a comunicação do Espírito Verdade, deveria esperar tudo isso, e tudo se verificou.
Mas também, ao lado dessas vicissitudes, que satisfação senti vendo a obra crescer de modo tão prodigioso! Com quantas doces consolações as minhas tribulações foram pagas! Quantas bênçãos, quantos testemunhos de real simpatia, não recebi da parte dos numerosos aflitos que a Doutrina consolou! Esse resultado não me fora anunciado pelo Espírito Verdade que, sem dúvida, desejou não me mostrar senão as dificuldades do caminho. Quanto não seria, pois, a minha ingratidão se eu me queixasse! Se dissesse que há uma compensação entre o bem e o mal, não estaria com a verdade, porquanto o bem, entendo as satisfações morais, superaram muito sobre o mal.
Quando me chegava uma decepção, uma contrariedade qualquer, elevava-me, pelo pensamento, acima da Humanidade; colocava-me, por antecipação, na região dos Espíritos e, desse ponto culminante, de onde descobria o meu ponto de atraso, as misérias da vida deslizavam sobre mim sem me atingir. Fizera-me disso um tal hábito que os gritos dos maus jamais me perturbaram.”

3.4  – O nome Allan Kardec

Quando da publicação de O Livro dos Espíritos, o autor se viu diante de um sério problema: Como assinar o trabalho? E mais uma vez prevaleceu o bom senso do professor Rivail, segundo se depreende das palavras do biógrafo:
“No momento de publicá-lo – diz H. Sausse, o Autor ficou muito embaraçado em resolver como o assinaria, se com seu nome, ou com um pseudônimo. Sendo o seu nome muito conhecido do mundo cientifico, em virtude dos seus trabalhos anteriores, e podendo originar confusão, talvez mesmo prejudicar o êxito do empreendimento, ele adotou o alvitre de o assinar com o nome Allan Kardec, nome que, segundo lhe revelara o guia Zéfiro, ele tivera ao tempo dos druidas.”

3.5  – As obras Espíritas

Além de O Livro dos Espíritos, saído a lume em 18 de abril de 1857, Kardec escreveu muitas outras obras espíritas, das quais se destacam: A Revista Espírita; O que é o Espiritismo; O Livro dos Médiuns; O Evangelho Segundo o Espiritismo; A Gênese. Após a sua desencarnação, foi publicado em 1890, em paris, por P. G. Laymarie, o livro Obras Póstumas – Coletânea de escritos do Codificador do Espiritismo.
Não menos importante é a correspondência, mediante a qual Kardec estabeleceu contato com escritores, políticos, eclesiásticos, sábios, pessoas de todas as condições e de todos os lugares, esforçando-se por consolar, satisfazer e instruir, abrindo às almas aflitas e torturadas as ridentes e doces perspectivas da vida supraterrestre.

3.6  – A atuação de Kardec na codificação da Doutrina Espírita

É voz geral entre os estudiosos da Doutrina Espirita – no que diz respeito ao trabalho da codificação – que Kardec não foi simples compilador, tendo sua tarefa ido muito alem da coleta e seleção do material, isto é, das mensagens recebidas do mundo espiritual. Sobre este assunto, Wantuil e Thiesen fazem os seguintes comentários:
“Conquanto Kardec sempre repetisse que o mérito da obra cabia todo aos Espíritos que a ditaram, não é menos verdadeira que a ele é que coube a ingente tarefa de organizar e ordenar as perguntas (e que perguntas!) sobre os assuntos mais simples aos mais complexos, abrangendo variados ramos do conhecimento humano. A distribuição didática das matérias encerradas no texto; a redação de comentários às respostas dos Espíritos, os quais primam pela cisão e pela clareza com que foram expostos; a precisão com que intitula capítulos e subcapítulos; as elucidações complementares de sua autoria; as observações e anotações, as paráfrases e conclusões, sempre profundas e incisivas; e bem assim a sua notável Introdução – tudo isso atesta a grande cultura de Kardec, o carinho e a diligencia com que ele se houve no afanoso trabalho que se comprometera a publicar. Kardec fez o que ninguém ainda havia feito: foi o primeiro a formar com os fatos observados um corpo de Doutrina metódico e regular, claro e inteligível para todos, extraindo do amontoado caótico de mensagens mediúnicas os princípios fundamentais com que elaborou uma nova doutrina filosófica de caráter cientifico e de consequências morais ou religiosas.”

4          – A desencarnação

“Trabalhador infatigável, sempre o primeiro e o último no trabalho, Allan Kardec sucumbiu, no dia 31 de março de 1869, em meio dos preparativos para uma mudança de local, necessitada pela extensão considerável de suas múltiplas ocupações. Numerosas obras que estavam no ponto de terminar, ou que esperavam o tempo oportuno para aparecerem, virão um dia provar mais ainda a extensão e a força de suas convicções.
Morreu como viveu, trabalhando. Há muitos anos, sofria de uma doença do coração, que não podia ser combatida senão pelo repouso intelectual e uma certa atividade material; mas inteiramente dedicado à sua obra, recusava-se a tudo o que podia absorver um dos seus instantes, às expensas de suas ocupações prediletas. Nele, como em todas as almas fortemente temperadas, a lâmina gastou a bainha.”
Acerca da luminosa existência do mestre Lionês, escreve o Irmão X (Humberto de Campos):
“Allan Kardec, apagando a própria grandeza, na humildade de um mestre-escola, muita vez atormentado e desiludido, como simples homem do povo, deu integral cumprimento à divina missão que trazia à terra, inaugurando a era espírita-cristã, que, gradativamente, será considerada em todos os quadrantes do orbe como a sublime renascença da luz para o mundo inteiro.”

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